Há lugares que guardam vozes mesmo quando estão em silêncio. E todo paulistano sabe que a Mercado Livre Arena Pacaembu é um deles. Aquele monumento emblemático nunca foi só concreto e arquibancada… sempre foi referência e memória viva do esporte da Cidade de São Paulo. Um símbolo que atravessa gerações.
Por isso, quando as portas da Mercado Livre Arena Pacaembu se abriram novamente para o judô, no fim de semana de 24 e 25 de janeiro de 2026, algo maior do que dois eventos aconteceu. Foi um reencontro. Um desses momentos em que a cidade parece reconhecer a si mesma no espelho.

De um lado, São Paulo completando 472 anos, levando essa comemoração muito a sério, como sempre faz, com gente, com movimento, com histórias acontecendo ao mesmo tempo.
Do outro, o judô que entende bem essa ideia de legado. Chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses, criou raízes, virou tradição. Formou caráter, disciplina, respeito. Nos levou ao pódio olímpico e, mais importante ainda, ajudou a formar pessoas. Crianças que aprendem cedo que cair faz parte. Que levantar também.
E a união dessas duas histórias potentes, culminou em dois dias de celebração da diversidade, da tradição, da força do esporte e do sentimento comunitário dos cidadãos da maior metrópole da América Latina.
Sábado, 24 de janeiro. O início.

O Super Desafio de Judô abriu o calendário competitivo da Federação Paulista de Judô e abriu também um novo capítulo para o esporte dentro da arena. Mais de 200 atletas inscritos, vindos de 24 entidades diferentes, ocupando o ginásio com concentração, nervosismo, aquecimento e aquele silêncio peculiar que só existe segundos antes do hajime.
Sub 15, Sub 18 e Adulto. Masculino e feminino. Disputas por peso. Medalhas no pódio. Kits entregues a todos os atletas. Mas, acima de tudo, a sensação de que a temporada começava ali, em um lugar que carrega história.

Na abertura, autoridades presentes. Discursos que falaram de compromisso, de futuro, de continuidade. O presidente da Federação, Henrique Guimarães, lembrou que aquele era apenas o primeiro de muitos torneios do ano. Um ponto de partida.
E no meio de tudo isso, estavam eles: os atletas. Giovanna, 13 anos, faixa verde, estreando em campeonato oficial. Confiante e nervosa, como todo primeiro passo importante costuma ser. Miguel, também com 13 anos, faixa azul, orgulhoso de representar sua academia. Pequenas falas que dizem muito sobre o tamanho do que acontece em um tatame.

Porque competir não é só ganhar ou perder. É aprender a lidar com o desconhecido. É se colocar. É pertencer.
Domingo, 25 de janeiro. A celebração.

No dia do aniversário da cidade, o tom mudou sem perder a intensidade. O Festival de Judô – Cidade de São Paulo transformou o ginásio em um espaço de descoberta. Mais de 300 participantes. Crianças, famílias, professores, técnicos. Arquibancadas cheias. Olhos atentos. Celulares erguidos. Sorrisos nervosos misturados com orgulho.
Um evento gratuito. E isso muda tudo.

Porque para muitas daquelas crianças, aquele foi o primeiro contato com um grande evento esportivo. O primeiro tatame em um ginásio histórico. A primeira medalha. A primeira foto naquele cenário que, até pouco tempo atrás, parecia distante demais.
Na cerimônia de abertura, mais autoridades, mais memórias sendo compartilhadas. O Secretário Municipal de Esportes, Rogério Lins, falou da infância, das lembranças na Mercado Livre Arena Pacaembu, da importância de permitir que crianças vivenciem experiências assim. Reforçou que aquele não era um dia para sair triste. Era um dia para celebrar.

E celebrar, ali, ganhou um significado bonito. Depois de 35 anos, o judô voltou ao Mercado Livre Arena Pacaembu em grande estilo. Respeitando a estrutura, preservando o espaço, e devolvendo aquilo que sempre foi sua essência: gente, esporte e encontro.
Diversidade no tatame. Futuro em movimento.
Quem olhava em volta via de tudo. Crianças de diferentes idades, corpos, histórias e origens. Famílias inteiras vibrando. Técnicos atentos. Uma diversidade impressionante e, ao mesmo tempo, muito natural. Porque o judô sempre foi isso. Um espaço onde todos cabem, desde que respeitem o outro.
Os dois eventos, realizados em parceria entre CNB Esporte e Cultura, Federação Paulista de Judô e Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, mostraram que devolver a Mercado Livre Arena Pacaembu à cidade vai além da reforma física. É sobre devolver experiências. Criar memórias. Plantar referências.

Talvez, daqui a alguns anos, uma daquelas crianças volte ali como atleta adulto. Ou como técnica. Ou apenas como alguém que diga: “eu estive aqui quando era pequeno”.
E isso já basta.
Porque celebrar São Paulo também é isso. Investir nas crianças. Valorizar o esporte. Honrar o passado enquanto se constrói o futuro.
No mesmo tatame. No mesmo lugar. No mesmo gesto de respeito que atravessa gerações. 🥋🤍